A maioria invisível e o poder sequestrado

Editorial

A maioria invisível e o poder sequestrado
Partido Afro Brasilidade

Os números do Censo de 2022 não deixam margem para dúvida: o Brasil é um país majoritariamente negro e pardo. Ainda assim, o poder continua rigidamente concentrado nas mãos de uma minoria branca, econômica e socialmente privilegiada. Essa contradição não é fruto do acaso nem de uma suposta falha de representação momentânea. Ela é resultado direto de um projeto histórico que nunca foi interrompido.

O Brasil aboliu a escravidão sem abolir o racismo. Proclamou a República sem democratizar o poder. Instituiu o voto universal sem garantir igualdade real de condições para que a maioria governasse. O resultado é uma democracia formal, onde a maioria vota, mas não decide; existe, mas não comanda; sustenta o país, mas não o dirige.

A população negra e parda só é maioria onde o Estado fracassa ou exerce sua face mais violenta. Está nas periferias abandonadas, nas escolas precarizadas, nas filas da saúde pública e, sobretudo, no sistema prisional. Já nos espaços onde se define o destino do país — parlamentos, tribunais, cúpulas partidárias, universidades de elite, grandes empresas e meios de comunicação — essa maioria desaparece quase por completo.

Não se trata de falta de mérito, preparo ou interesse político. Trata-se de exclusão estrutural. O acesso desigual à educação, ao financiamento eleitoral, às redes de poder e à proteção institucional cria um funil que impede a maioria de chegar aos centros de decisão. Quando chega, muitas vezes é tolerada apenas enquanto não altera a lógica do sistema.

A representação política brasileira é, portanto, distorcida. Não basta eleger alguns nomes negros ou pardos para legitimar um arranjo que continua operando contra a maioria da população. Representatividade real não é simbólica; é material. Ela se expressa no controle da agenda, na definição do orçamento, na formulação de políticas públicas e na capacidade de permanência no poder.

Enquanto isso não acontece, a redução de danos deveria ser uma obrigação imediata do Estado. Reduzir a letalidade policial, enfrentar o encarceramento em massa, revisar a política de drogas, garantir orçamento público orientado à superação das desigualdades raciais e democratizar o acesso

— e a permanência — nas universidades e nos espaços de comando não são pautas identitárias. São medidas mínimas de justiça social e de preservação da própria democracia.

A política de segurança pública, por exemplo, segue baseada numa lógica de guerra contra territórios racializados. Mata-se muito, investiga-se pouco, responsabiliza-se quase ninguém. O sistema penal funciona como mecanismo de contenção social da juventude negra, enquanto crimes financeiros e estruturas de poder seguem intocadas. Isso não é desvio de rota: é o funcionamento normal de um Estado que escolheu quem deve viver e quem pode morrer.

O debate sobre representatividade precisa, portanto, avançar. Não se trata de integração da maioria a um sistema excludente, mas de redistribuição real de poder. Partidos que não refletem a composição racial do país não representam o povo. Governos que não enfrentam o racismo estrutural administram a desigualdade. Instituições que ignoram essa realidade ajudam a perpetuá-la.

A pergunta central não é por que a maioria não está nos centros de decisão. A pergunta incômoda — e necessária — é: quem se beneficia dessa ausência? Enquanto essa resposta não for enfrentada com honestidade política, o Brasil continuará sendo um país governado contra a sua própria maioria.

Tornar visível a maioria negra e parda não é concessão nem favor. É uma correção histórica. É uma exigência democrática. E, sobretudo, é condição para que o país deixe de reproduzir o passado e comece, de fato, a decidir o seu futuro.

Quadro comparativo de representatividade racial no Brasil

 

 

Branco

Negro

Indigena

Amarelo

População

43,5%

55,5%

0,8%

0,4%

Congresso Nacional

74%

26%

-

-

Judiciario

85%

15%

-

-

STF

100%

0%

-

-

Governadores

67%

33%

-

-

Prefeitos

77%

23%

-

-

empresas (liderança)

99%

1%

-

-

Medicos

75%

23%

-

-

Morador Favela

26,6%

73%

-

-

População Carceraria

30%

70%

-

-

Jovens de até 29 anos, assassinados/ano

22,5%

73%

-

-

Tem um dado interessante quando se aplica políticas afirmativas. Em 2009, haviam no Brasil cerca de 17% de alunos negros nas universidades federais. Em 2022, esse número saltou para 47%.

 

Síntese comparativa

A maioria negra e parda sustenta o funcionamento do Estado e do mercado, mas não controla orçamento, decisão nem narrativa. O poder permanece racialmente concentrado, enquanto a desigualdade é socialmente distribuída.

Os dados revelam que o Brasil não vive um déficit de diversidade, mas um bloqueio histórico de poder. Onde há comando, a maioria desaparece. Onde há punição e precarização, ela se impõe. Essa assimetria não é falha do sistema — é o próprio sistema em funcionamento.

Executiva Nacional

Assessoria de Comunicação: comunicacao@afrobrasilidade.ong.br