Numa virada dramática típica da Argentina, ainda sem definição final, presidente vai da glória nas urnas a uma difícil tragédia no mar em menos de um mês


Em algum ponto secreto dos círculos de Dante deve existir um lugar para os que se aventuram a profetizar sobre a Argentina.

Em 23 de outubro, Mauricio Macri comemorava uma vitória eleitoral maior do que a mais ambiciosa das expectativas. “Queremos conquistar algo grande, um país decidido a fazer as coisas bem-feitas”, disse no discurso que precedeu planos de reformas e de um pacto nacional entre diferentes forças políticas. “Nós argentinos somos imparáveis.”

O país que faz as coisas mal-feitas, como sabem tão bem os brasileiros, se revelou no desastre com o submarino San Juan. A explosão, detectada por estações com sensores que fazem parte da rede de controle de testes nucleares, foi reconhecida pela Marinha na última sexta-feira, dia 24, nove dias depois do último contato.

Incompetência, mentiras e tentativas de acobertamento, incluindo para o próprio presidente, são apenas alguns dos malfeitos já expostos.

Isso que o submarino ainda nem foi encontrado e talvez jamais o seja, encerrando para sempre numa fosse do Atlântico os momentos finais das 44 vidas que levava.

Por quanto tempo continuariam os comunicados da Marinha, alimentado esperanças de que “los 44” submarinistas  talvez fossem como “los 33” mineiros chilenos salvos num resgate épico, depois de dois meses, em 2010?

Saberão os argentinos distinguir entre os erros de uma Marinha sucateada, em outro paralelo com o Brasil, a incompetência dos quadros civis e a figura do presidente?

TORPEDO FURADO

Desastres que desabam no colo do chefe de governo são frequentes.  A culpa, ou o mico, como dizia o aviso sobre a mesa de Harry Truman, sempre acaba na conta do presidente, qualquer que seja sua real responsabilidade.

Seja ele o George Bush do Katrina ou o Vladimir Putin do Kursk. Este um caso impressionante pelas similaridades com o San Juan.

A Marinha russa conseguiu disfarçar durante quatro dias antes que Putin, recém-chegado ao poder e mostrado em cenas de “vida normal”, em férias, se desse conta do tamanho do desastre e aceitasse ajuda estrangeira para procurar o submarino que explodiu, ou sofreu explosões em série, em 12 de agosto de 2000.

Sete dias depois, mergulhadores noruegueses abriram o primeiro compartimento do Kursk. Muitas investigações depois, foi possível  concluir que primeiro explodiu um torpedo que seria lançado num ataque simulado.

O  torpedo estava velho, amassado no transporte e possivelmente com uma solda defeituosa por onde vazou combustível. Dos 118 homens a bordo, 23 conseguiram sobreviver durante seis horas. “Parece que não existem mais chances, de 10 a 20%”, escreveu Dimitri Koleshnikov, um dos três oficiais a bordo.

Ele deixou uma carta espantosamente recuperada. No final da despedida à esposa,  enumerou os nomes dos sobreviventes. “Esperemos que pelo menos alguém leia isso” , registrou na segunda anotação.

Escrita no verso de um livro de bordo, a carta foi dobrada em quatro, embrulhada em material impermeável e  guardada no bolso. Os legistas russos que fizeram a autópsia no corpo de Koleshnikov, num container a bordo do navio norueguês mobilizado para a busca, a encontraram imediatamente.

SURPRESA ZERO

O que leva alguém a querer passar a vida profissional espremido num tubo de metal debaixo d’água, submetido a pressões tremendas?

Provavelmente uma mesma mistura de gosto por disciplina e risco, ambos em altas proporções, além do orgulho de pertencer a uma categoria especial. “Me sinto bem, feliz e feliz”, disse a primeira e única submarinista argentina, Eliana Krawczyk, sobre os espaços apertados e compartilhados só com homens. Ela era chefe de armas no San Juan.

Famílias revoltadas gritando com autoridades são outra triste consequência vista tanto no caso do Kursk. como do submarino argentino. Como Putin, Macri foi criticado por demorar demais a ir até a base de Mar del Plata, para onde confluíram os parentes agoniados.

As semelhanças não devem ser exageradas. Macri é um empresário com carreira como presidente de um time de futebol que se tornou prefeito de Buenos Aires e deu um salto para a presidência, recebendo no meio de mandato um inesperado impulso do eleitorado.

Suas palavras arrebatadas de outubro viraram o discurso cauteloso em que prometeu uma investigação “séria e profunda”, sem precipitações pela busca de culpados.

Putin, ex-agente da KGB que nunca mais deixou o poder, mestre da manipulação, disse que tinha “um sentimento completo de responsabilidade e culpa” pelo desastre do Kursk. Agora, mandou um Antonov carregado com mergulhadores e um minissubmarino para ajudar os argentinos.

Os momentos de comoção nacional têm sua dinâmica e a do desastre do San Juan ainda está se desenrolando.

Mas bastou uma consulta aos arquivos para mostrar uma denúncia arquivada de irregularidades na modernização de meia vida do San Juan, um modelo alemão de 1985. O submarino ficou num estaleiro reestatizada no início da era Kirchner.

A reestatização deveria representar a retomada da indústria bélica argentina sob a égide do governo, um conceito também conhecido do lado de cá da fronteira.

A denúncia, feita por um suboficial contra o comandante da Marinha à época, envolvia o pagamento a empresas privadas subcontratadas para serviços que na prática eram feitos por pessoal da Marinha.

Algum brasileiro ficaria surpreso com isso?